5 de agosto de 2017

Tensão Índia-Butão vs China

China acusa Índia de reforçar presença militar em meio a disputa de fronteira 
Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que a Índia está mobilizando mais tropas e consertando estradas ao longo de seu lado da fronteira em meio a um impasse cada vez mais tenso em uma região fronteiriça remota ao lado do reino himalaio do Butão.

Sala de conferência usada para reuniões entre comandantes militares da China e da Índia, na fronteira entre os dois países 11/11/2009 REUTERS/Adnan Abidi/Files
Sala de conferência usada para reuniões entre comandantes militares da China e da Índia, na fronteira entre os dois países 11/11/2009 REUTERS/Adnan Abidi/Files
Foto: Reuters
O impasse em um planalto próximo do Estado indiano montanhoso de Sikkim, que faz divisa com a China, aumentou a tensão entre os dois vizinhos, que compartilham uma fronteira de 3.500 quilômetros, da qual grande parte é alvo de disputas."Já faz mais de um mês desde o incidente, e a Índia não só ainda está permanecendo ilegalmente em território chinês, também está consertando estradas na retaguarda, armazenando suprimentos, reunindo um grande número de efetivos armados", disse a chancelaria em um comunicado."Isto certamente não é para a paz".A Índia negou tal reforço militar e, em um comunicado enviado ao Parlamento na noite de quinta-feira, a chanceler Sushma Swaraj exortou o diálogo baseado em um entendimento comum por escrito relativo à intersecção de fronteira firmado em 2012."A Índia sempre acredita que a paz e a tranquilidade na fronteira Índia-China é um pré-requisito importante para o desenvolvimento sereno de nossas relações bilaterais", afirmou Swaraj, de acordo com uma transcrição de seus comentários divulgada por seu gabinete."Continuaremos a nos engajar com o lado chinês por meio de canais diplomáticos para encontrar uma solução mutuamente aceitável".No início de junho, segundo a interpretação chinesa dos acontecimentos, guardas indianos cruzaram para a região chinesa de Donglang e obstruíram o trabalho em uma estrada do planalto.Depois disso, soldados dos dois lados se confrontaram perto de um vale controlado pela China que separa a Índia do Butão, seu aliado próximo, e dá acesso à China ao chamado Pescoço de Galinha, uma faixa estreita de terra que liga a Índia e suas regiões remotas do nordeste.A Índia disse ter alertado a China que a construção da estrada perto de sua fronteira comum causaria sérias implicações de segurança.


2.

Quem tem algo a ganhar com uma guerra entre China e Índia na Ásia?

Míssil balístico de longo alcance Agni-V durante desfile militar em Nova Deli, ÍndiaChina e Índia vivem há quase dois meses um momento de forte tensão em uma região montanhosa, na fronteira entre os dois países, e Pequim aumentou a carga nesta semana, ao reiterar que as tropas indianas devem sair da área, sob pena de uma guerra ser deflagrada entre os dois países.
A tensão envolve o Doklam, uma área montanhosa na fronteira entre Índia, China e Butão. A China começou a construção de uma rodovia na região, o que causou protestos da parte do Butão. Dias depois, as tropas da Índia — país que mantém laços de amizade extrema com o Butão — atravessaram a fronteira e fizeram com que os soldados chineses deixassem o território.
O temor de um conflito militar na área faz surgir a pergunta: quem tem a ganhar com uma guerra entre chineses e indianos — dois países possuidores de armas nucleares — na Ásia neste momento?
Em artigo publicado pela RIA Novosti, o analista russo Dmitri Kosyrev destacou que a entrada da Índia no impasse se deu exclusivamente por uma questão geopolítica, de apoio a um aliado (Butão), a fim de se afirmar como uma potência regional no sul asiático. Não há qualquer demanda religiosa de Nova Deli para se envolver na confrontação com Pequim.
Todavia, o governo indiano sabe que a construção da estrada por parte dos chineses envolve uma importante região, o corredor de Siliguri, que conecta os estados do noroeste da Índia com o restante do país.
Alheio a isso, o presidente chinês destacou, na terça-feira passada, que a China “nunca permitirá a nenhum povo, organização ou partido político dividir uma parte do território chinês em nenhum momento e de nenhuma forma”. Apesar do forte tom da fala, Pequim ainda não deseja um conflito militar com os indianos, avalia Kosyrev.
Uma guerra de fato entre China e Índia será uma derrota para ambos os países, embora em terra a vitória penderia para o lado chinês.
Em contrapartida, pondera o analista russo em seu artigo, Pequim poderia perder acesso à rota comercial do Oceano Índico e ao estreito de Malaca, por onde obtém 80% das suas importações de petróleo. Seriam sentidos ainda impactos no projeto da Nova Rota da Seda, que possui o apoio de todos os países do sul asiático, menos da Índia.
“Sonho norte-americano”
Kosyrev acredita que o único país a ver ganhos com uma guerra entre chineses e indianos seria os Estados Unidos. “Seria o sonho dourado da política externa estadunidense”, emenda o especialista.
Ele menciona não só os exercícios navais conjuntos realizados pelos EUA, Japão e Índia no golfo de Bengala, mas também a venda de aviões de combate para o governo indiano por US$ 2 bilhões, e a venda de aviões de transporte por US$ 365 milhões.
Mas analistas indianos se queixaram do fato da Casa Branca não ter emitido nenhum posicionamento sobre a disputa territorial com os chineses, o que não seria um bom sinal para Nova Deli. É certo que Washington acompanha o assunto, de olho na manutenção ou aumento da sua influência na Ásia como um todo.
Assim, o principal desafio posto para China e Índia é encontrar uma saída comum e boa para os dois lados, sem que um tiro sequer seja dado. Para o analista russo, “não há nenhuma base racional para o ódio entre os dois vizinhos”, classificando a atual crise como uma “idiotice geopolítica do Himalaia”.



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