2 de fevereiro de 2021

EUA no Mar Negro gerando escalada das tensões com a Rússia



Presença americana no Mar Negro gera tensões

Por Lucas Leiroz de Almeida


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A política agressiva dos EUA no Mar Negro continua. A presença de contratorpedeiros das Forças Armadas americanas na costa russa é notória e causa desconforto entre os russos devido à proximidade da região com seu território nacional. Num contexto de forte presença estrangeira, qualquer exercício militar ou teste de armas que as Forças Armadas russas realizem na região - o que seria absolutamente normal, considerando que se trata da fronteira russa - torna-se imediatamente um foco de tensões e ameaças internacionais. No entanto, Moscou não desistirá de suas estratégias de simplesmente aceitar a presença americana.
A frota russa conduziu recentemente um combate naval simulado no Mar Negro, onde dois destróieres americanos permanecem. Apesar de ser um exercício comum e rotineiro das forças navais de qualquer país, a situação gerou grande preocupação na sociedade internacional devido à proximidade entre navios russos e destróieres americanos. É claro que, neste caso, a Rússia está apenas realizando manobras comuns em sua área de influência e o fator “atípico” seria a presença americana.
O exercício russo foi uma simulação de uma situação de combate naval, com foco na detecção de inimigos e neutralização por meio de guerra eletrônica. A primeira fase de operações já foi concluída, mas posteriormente, novos testes com o mesmo objetivo serão realizados. Uma das razões pelas quais as tensões aumentaram na região foi também o fato de os exercícios russos serem realizados em um período quase simultâneo aos exercícios americanos. No final de janeiro, foi realizada uma grande operação ar-naval da OTAN no Mar Negro, com a participação dos contratorpedeiros americanos atualmente alocados na região (USS Porter e USS Donald Cook).

Há muito tempo está claro que Washington pretende cercar a Rússia pelos mares. A presença de navios americanos ao longo da costa russa é uma prova clara de que existe um projeto para monitorar e patrulhar as atividades russas em sua própria zona de influência. A presença americana é particularmente forte no norte e sudeste da costa e significa uma clara tentativa de Washington de demonstrar força, tentando atestar sua capacidade de monitorar as atividades navais russas.
Além do fato de Washington manter navios de combate em uma região sob a influência de uma potência inimiga potencial, um fator de grande preocupação é a capacidade de guerra desses navios americanos. Os contratorpedeiros americanos atualmente alocados na costa russa se destacam por serem equipados com cerca de 90 mísseis de cruzeiro com alcance de cerca de 3.000 quilômetros. Juntos, a capacidade desses navios pode cobrir quase todo o território russo, incluindo Moscou. Em outras palavras, a presença americana na costa russa atingiu níveis intoleráveis ​​de provocação e afronta à soberania nacional.
Em resposta, a estratégia de Moscou é simplesmente manter sua rotina comum de testes e exercícios - o que é suficiente para Washington elevar ainda mais a tese de uma "ameaça russa".
Essa política não é por acaso. Washington teme o processo avançado de declínio de sua hegemonia naval, por isso passa a se concentrar em pontos estratégicos com táticas específicas, que buscam inibir seus inimigos - e não enfrentá-los diretamente. Sob o discurso da “ameaça russa”, os EUA e a OTAN colocam navios e realizam testes de guerra na costa russa porque sabem que, na verdade, não há ameaça russa ou plano de guerra por parte de Moscou, o que significa que os russos evitará, tanto quanto possível, responder às provocações com força equivalente. Trata-se de uma tentativa de conter as atividades militares para que a zona costeira russa permaneça vulnerável à presença da OTAN.

O cenário não tende a melhorar no futuro próximo. Com Biden, a política externa americana ficará ainda mais agressiva e o novo presidente deverá investir pesado na recuperação do domínio naval americano - o que é um passo importante para recuperar o status hegemônico global. Provavelmente teremos um futuro de muitos conflitos na região costeira russa - talvez não confrontos diretos, mas testes cada vez mais fortes e frequentes, gerando constantes tensões e preocupações. * Este artigo foi publicado originalmente na InfoBrics

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